domingo, 16 de março de 2014

Diante da rua longa, ele respira e caminha devagar, sem parar, devagar, sem parar, devagar... Muito preto de origem, um pouco branco da sujeira da cidade, o caminhante (tem coisa mais humana que chamar um mendigo de caminhante? quando alguém se torna um mendigo? em que momento uma pessoa tem o direito de chamar outra de mendigo?) não suja seus pensamentos com nenhum dos olhares dos juízes, anônimos ambulantes da cidade, que passam por ele ao longo da rua; todas as ruas, todos os dias. Ele não dorme sem que algum juiz exerça o seu papel de olhar com desprezo o mendigo (caminhante?).

O solado dos seus pés se transformou em cristal. Ele mesmo não o sabe ainda, não olhou pra debaixo dos pés, porque ainda não viu na cidade água limpa pra lavá-los - Fortaleza nunca chove. Eu sei porque vi o brilho quando ele passou. Fica um rastro de luz, aquela luz de rio quando o céu tá bem bem bem claro de sol, aquela luz que pega a natureza inteira do planeta natureza e junta num pontinho só. Assim é o pé do caminhante. Eu mesma vi quando ele passou na Treze de Maio, na Domingos Olímpio, na Desembargador Moreira e vi agorinha na Barão de Studart.

Também tem a música. Ele não escuta os carros e os olhares, porque a cabeça sempre está virada para o caminho. A música que ele escuta é a daquela flauta que toca na sua barriga, principalmente ao meio-dia, que é a hora que toca mais alto. A música de uma floresta distante no tempo, mas que não para de chamá-lo de volta pra casa. E ele, claro, caminha, caminha, caminha... e todo dia, ao meio-dia, tenta escutar melhor o rumo de casa.

Seus cabelos, grandes dreads, são referências, inconscientes referências, inocentes referências, aos seus avós, bisavós, tataravós, que o presentearam soprando a ideia num dia de vento: deixa o cabelo. Ele é sua casa. E como numa vaga lembrança de um sonho que ele não sonhou ainda, pensou: essa é a única coisa que eu tenho, meu cabelo. E é a mais bonita, só perde pra o sorriso que ele ainda não deu. No dia do sorriso, o sol vai ser o mais brilhante, o céu o mais pintado, o vento o mais fresquinho - Fortaleza vai estar bem assim, a cara dela mesma - e a cidade inteira vai aprender de uma lição só aquilo que uma pessoa consegue ensinar sem dizer uma palavra.

Mas ainda não falei do abraço. É que se eu falar, perde a graça.

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