Eu estou dentro.
Me matei umas duas ou três vezes nos últimos anos. Por dia. Por hora, talvez. Não me mato mais, pelo menos pelos próximos segundos, não me mato mais. Estou reaprendendo a viver dentro desta gaiola. Estou pintando a gaiola, escrevendo poesias nas suas paredes, passando perfume nos cômodos, pra abandoná-la - até que o próximo ser a encontre e decida morar, caso consiga passar pelas suas grades livremente, então deixarei a liberdade como legado. Assim, limpando o tapete por cima e por baixo, acabaram-se algumas escravidões, até guerras talvez.
Esqueci do drama que era escrever. Escrever é um teatro que ecoa no corpo... a ponta dos dedos se lança como um bailarino se joga no chão; são piruetas e gritos que te fazem ser forte e ter coragem de expor o corpo nu pra uma plateia imensa, de imensos eus com imensos dedos apontados pros seus dedos.
Até a ortografia brasileira mudou. Eu mudei, não me mato mais. Dentro de cada morte havia uma luz incandescente ao meu redor, tentando se aproximar, me aconchegar, me abraçar, mas eu não ouvia seu OM. De quantas luzes juntas se faz uma vida? Fui cega por segundos, os segundos mais vivos, os mesmos que a luz tentava me abraçar, os mesmos da minha morte, o encontro mais intenso entre vida e morte se faz nos segundos, aqueles segundos, aqueles tão rápidos segundos de imensa luz e breu.
Deságuo mais uma vez, uma represa de anos. Me desprendo, desprendo todos os meus ossos, todos os músculos, cada contração se liberta. Minha liberdade sempre foram as palavras. Cada letra é um pulo do abismo, cada abismo é um nascimento. Tive que morrer, aquela transformação maior, aquela ida sem volta que é a morte. Se volta outro. Hoje, meus tataravós são bebês. A árvore gigante do quintal morreu umas duas vezes por dia. A cada chuva, caiam suas folhas. A cada vento, caiam suas flores. Os vaga-lumes numa dança incessante ao seu redor, a chamava pacientemente pra vida. E a cada estação, ela se lembrava de o quanto é bom decidir pela vida, ouvir sua luz.
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